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Como as pessoas usam IA em 2026: trabalho ou julgamento?

Advogado trabalhando no notebook em ambiente de escritório à noite, com iluminação azulada refletida no vidro. Blog post Inspira.

Em junho de 2026, a Harvard Business Review divulgou um estudo que examinou acima de 12.600 casos práticos de aplicação de inteligência artificial globalmente. Constatou-se algo que ultrapassa a mera ordenação de atividades: em vez de buscarem o aprimoramento do próprio raciocínio, os usuários recorrem à tecnologia para contornar etapas do ato de pensar.

O que a pesquisa revelou sobre o uso de IA em 2026

A pesquisa mapeou os dez principais usos de IA em 2025 e 2026, organizados por frequência de relatos. O gráfico abaixo mostra como o ranking mudou entre os dois períodos.

Top usos de IA e as mudanças de 2025 e 2026. Blog post Inspira.

Dois dados chamam atenção imediata. O primeiro: terapia e companhia ocupa o primeiro lugar nos dois anos, com crescimento expressivo de 5% para 11% do conjunto de dados total. O segundo: operações com agentes entrou no ranking de 2026 diretamente em sexto lugar, sem ter estado no top 10 no ano anterior.

Esses dois pontos, juntos, dizem muito sobre como a relação entre humanos e IA está evoluindo.

Os cinco padrões que mais importam hoje

1. O suporte emocional atravessou a fronteira do pessoal para o profissional

Embora o uso terapêutico e a busca por companhia liderem as estatísticas, a necessidade de amparo emocional por meio da inteligência artificial também avançou sobre o ambiente de trabalho. Segundo o levantamento, aplicações voltadas ao contexto corporativo ganharam relevância, com destaque para a busca por um "espaço seguro para perguntas" (posição #32), iniciativas para "aumentar a confiança" (posição #43), ferramentas para "ajustar o tom de e-mails" (posição #58) e simuladores para "preparação de entrevistas" (posição #89). Esse cenário deixa claro que os limites entre a esfera pessoal e a rotina profissional foram superados.

Hamilton Morrin, o pesquisador, aponta que a dificuldade de acesso a cuidados de saúde mental pode explicar parte dessa busca por suporte via IA. Ele lembra que chatbots não substituem profissional treinado e registra casos de psicose associada ao uso intensivo dessas ferramentas. O ponto não é alarmista: é que a IA está ocupando espaços que exigem atenção sobre o que ela consegue e o que não consegue fazer.

2. A adoção se expandiu muito além da produtividade

O ranking de 2026 inclui terapia, ficção e storytelling, astrologia e leitura de tarô, conselho para relações e conselhos em geral. A IA é uma presença horizontal na vida das pessoas, usada em domínios completamente diferentes ao mesmo tempo.

Para o mercado jurídico: a adoção de IA entre advogadas e advogados já aconteceu, e vai continuar crescendo. O que ainda se define é a qualidade desse uso.

3. Em muitos casos, as pessoas pedem resposta, não ajuda para raciocinar

Esse é o dado mais relevante da pesquisa, e ele não aparece diretamente no ranking. Aparece nos relatos qualitativos: uma parte significativa dos usos mapeados mostra pessoas buscando a conclusão pronta, não o suporte ao processo de chegar a ela.

Ninguém busca essa 'atalho' de forma consciente. Trata-se de uma resposta instintiva à tentação de obter soluções prontas, o que, infelizmente, obscurece o valor do processo crítico. Mas o comportamento é real, e a tendência é se ampliar conforme a IA fica mais precisa em parecer que pensa. Pedir uma resposta e receber é tentador, de verdade. O problema é o que fica de fora quando o processo é pulado.

Dois profissionais do Direito consultando informações no smartphone durante conversa em corredor de escritório. Blog post Inspira.

4. Operações com agentes entrou no ranking com força

A ascensão das operações com agentes para a sexta colocação em 2026, após não figurar no top 10 em 2025, evidencia uma evolução no comportamento dos usuários. Em vez de se limitarem a diálogos com a IA, as pessoas passaram a transferir fluxos integrais de trabalho para sistemas dotados de autonomia. Essa autonomia, por sua vez, exige uma reavaliação de como o trabalho intelectual é estruturado, tema que exploramos no tópico seguinte.

5. O uso profissional cresceu em sofisticação

No ano de 2026, as operações com agentes alcançaram o sexto lugar e a função de assistente de trabalho situou-se na oitava posição. Longe de sumir das classificações, o emprego da inteligência artificial no ambiente profissional demonstra crescente complexidade. O elemento determinante que separa o uso da IA como um mero suporte daquele que anula a capacidade crítica do indivíduo baseia-se em quanto do processo racional o especialista preservou sob sua própria autoria, e não no comando enviado à ferramenta.

A distinção que todo profissional do Direito precisa fazer

Existe uma diferença que raramente aparece nas discussões sobre produtividade com IA, mas que é central para qualquer profissional do Direito.

Delegar trabalho é usar IA para fazer uma busca, organizar documentos, formatar uma peça ou rascunhar uma minuta. O julgamento continua sendo do profissional: ele avalia, decide, assina.

Delegar julgamento é pedir para a IA concluir, avaliar ou interpretar, e aceitar o resultado sem refazer o caminho. A IA chegou a uma resposta. O profissional não sabe exatamente como.

No Direito, a responsabilidade pelo raciocínio jurídico é pessoal e intransferível. Não porque a IA necessariamente erre mais que humanos, mas porque o processo de raciocínio é parte da entrega. E porque quem assina a peça responde por ela.

A pesquisa da HBR mostra que, no uso geral da IA, boa parte das pessoas está delegando julgamento sem perceber que está fazendo isso. Para advogadas e advogados, perceber essa distinção é parte da responsabilidade profissional.

Cinco perguntas para discutir com sua equipe

Para que essa distinção — entre delegar trabalho e delegar julgamento — deixe de ser teórica e se torne parte da cultura do seu escritório, proponho cinco questões norteadoras para o debate com sua equipe:

  1. O que, na nossa rotina atual, estamos pedindo para a IA decidir? Não concluir, não sugerir: decidir.

  2. Quando usamos IA para pesquisa jurisprudencial, verificamos o raciocínio por trás do resultado? Ou aceitamos o output como ponto de chegada?

  3. Há alguma tarefa que terceirizamos para IA porque é difícil, não porque é repetitiva? Essas são as mais relevantes de revisar.

  4. Qual é o protocolo da equipe quando um resultado de IA contradiz o entendimento anterior do escritório? Existe um protocolo, ou fica na subjetividade de cada profissional?

  5. A ferramenta que usamos foi construída para o contexto jurídico brasileiro? Ou adaptamos algo genérico para uma necessidade específica?

Não há resposta certa universal para nenhuma dessas perguntas. Mas equipes que as colocam na mesa tomam decisões de adoção de IA com muito mais clareza.