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Dados, jurisprudência e estratégia: como o Direito está se tornando uma ciência de decisão

A advogada Fernanda Tanure em foto preto e branco, ilustrando conteúdo sobre jurimetria.

O ambiente jurídico-empresarial passa por uma transformação estrutural. A crescente complexidade regulatória, o volume sem precedentes de litígios e a sofisticação das operações corporativas impõem uma mudança clara de paradigma: decisões jurídicas não podem mais se apoiar apenas na experiência, na intuição ou na retórica técnica.

Hoje, decisões relevantes exigem dados.

É nesse contexto que a jurimetria — a aplicação de métodos estatísticos e analíticos ao Direito — deixa de ser uma inovação periférica e passa a ocupar o centro da gestão jurídica estratégica. Mais do que tecnologia, trata-se de uma nova forma de pensar risco, alocar recursos e sustentar decisões de alto impacto.

Os números do Relatório Justiça em Números 2025, ilustram a dimensão do desafio: o Judiciário brasileiro encerrou 2024 com 80,6 milhões de processos pendentes, além da entrada de 39,4 milhões de novos casos no mesmo período. Navegar com segurança nesse cenário exige, necessariamente, capacidade analítica.

imagem do vazio do oceano representando as alucinações da inteligência artificial

O que é jurimetria — e por que ela se tornou estratégica

O termo jurimetria foi utilizado formalmente pelo jurista americano Lee Loevinger, em 1949, mas sua aplicação prática só se tornou viável com a digitalização dos acervos judiciais e o avanço do processamento de linguagem natural (PLN).

No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) desempenhou papel central nesse processo ao estruturar bases de dados e plataformas que permitem análises estatísticas sofisticadas. Um exemplo é a plataforma Codex, desenvolvida pelo Tribunal de Justiça de Rondônia em parceria com o CNJ, responsável por coletar, padronizar e estruturar dados dos sistemas de processo eletrônico em todo o país.

Esse acervo já reúne cerca de 398 milhões de processos e mais de 19 bilhões de movimentações processuais, que alimentam o DataJud, Banco Nacional de Dados do Poder Judiciário. A partir dele, é possível analisar produtividade, acervo, tempo de tramitação e padrões decisórios com um nível de precisão até então inalcançável.

Paralelamente, o Judiciário brasileiro avança no uso de inteligência artificial. Dados do Painel de Pesquisa de IA do CNJ (2024) indicam que 58 tribunais já possuem projetos ativos, totalizando 98 iniciativas cadastradas. STF e STJ operam sistemas próprios voltados à triagem e categorização processual, como os projetos Victor, Maria e STJ Logos.

Nesse ponto, a jurimetria deixa de ser apenas analítica e se torna estratégica. Ao transformar decisões passadas em padrões mensuráveis, ela permite:

  • estimar probabilidades de êxito;

  • prever duração processual;

  • calcular valores esperados de condenação; e,

  • identificar padrões decisórios de tribunais e magistrados.

O impacto é direto na forma como escritórios e departamentos jurídicos atuam — menos reação, mais predição

Leia mais: Segurança e IA Generativa no Poder Judiciário

grupo de pessoas representando a responsabilidade no uso de inteligência artificial no direito

Da assessoria reativa ao aconselhamento preditivo

O modelo tradicional de assessoria jurídica era, essencialmente, reativo: o advogado era acionado diante de um problema já constituído e construía a melhor tese possível para solucioná-lo. Embora tecnicamente consistente, esse modelo mostrava limites evidentes no contexto da gestão corporativa contemporânea.

A jurimetria viabiliza uma abordagem distinta: o aconselhamento estratégico antes da materialização do litígio. Com dados atualizados quase em tempo real, torna-se possível identificar mudanças de entendimento jurisprudencial e antecipar riscos com maior precisão.

Perguntas que antes dependiam quase exclusivamente de julgamento subjetivo passam a ser respondidas com base empírica:

  • Qual a taxa de provimento de recursos sobre determinado tema em um tribunal específico?

  • Qual o perfil decisório de um relator em determinada matéria?

  • Qual o valor médio de condenação em ações semelhantes?

Cada resposta carrega impacto financeiro direto. Mas a dimensão estratégica vai além da probabilidade de êxito.

Indicadores estruturais do Judiciário também importam. A taxa média de congestionamento é de 64%, chegando a 72,8% nas execuções fiscais. Na Justiça Federal, a fase de execução pode levar, em média, seis anos. Esses dados influenciam o valor presente do crédito, o custo de oportunidade e a racionalidade econômica da litigância (Justiça Números 2025).

Um direito com alta chance de reconhecimento, mas baixa efetividade prática, pode ser menos vantajoso do que uma solução consensual imediata. É aqui que dados, tempo e recuperabilidade se integram em modelos mais sofisticados de decisão.

Nesse cenário, o papel do profissional do Direito se amplia: de defensor de posições constituídas para arquiteto de predições.

Leia mais: Como pesquisar jurisprudência de forma mais inteligente e ágil em 2026

A excelência jurídica no presente

A excelência na assessoria jurídica corporativa passou a exigir a integração entre técnica jurídica refinada e capacidade analítica. Escritórios e departamentos jurídicos que operam com esse alinhamento oferecem mais do que defesa: oferecem previsibilidade, consistência e gestão qualificada de riscos.

Essa precisão não nasce da intuição. Ela nasce de método.

Confiabilidade, padronização e tratamento adequado dos dados são elementos essenciais — assim como a capacidade de formular as perguntas corretas. É esse encadeamento rigoroso que diferencia a jurimetria de uma simples busca por precedentes e transforma dados brutos em inteligência decisória.

Os ganhos são mensuráveis:

  • redução de custos operacionais;

  • maior acurácia no provisionamento; e,

  • validação objetiva de teses com base em histórico decisório.

O próprio Poder Judiciário colhe resultados. Segundo o CNJ, o Judiciário iniciou 2026 com o menor estoque de processos pendentes em seis anos, reflexo, entre outros fatores, da atualização das Tabelas Processuais Unificadas em 2025, que aprimoraram a classificação e a leitura do acervo.

Em março de 2026, o CNJ lançou o Promptus, ferramenta nacional voltada ao uso estratégico de IA generativa por magistrados e servidores, com comandos padronizados para apoio a atividades judiciais e administrativas — mais um passo rumo à racionalização do sistema.

Leia mais:  O futuro do Direito: compreender dados será tão importante quanto conhecer a lei

O cliente no centro da decisão

No fim, o maior beneficiário dessa transformação é o cliente. Não porque o Direito tenha se tornado mais simples, mas porque se tornou mais transparente, mensurável e defensável.

O Direito sempre foi uma disciplina de julgamento. O que muda agora é a qualidade da informação que alimenta esse julgamento. Quando processos viram dados, jurisprudência vira evidência e provisões viram modelos preditivos, o Direito se consolida como uma verdadeira ciência de decisão.

E ciências de decisão produzem resultados mais consistentes, previsíveis e sustentáveis — para os profissionais que as dominam e, sobretudo, para os clientes que delas dependem.


Fernanda Tanure é sócia de Ambiente, Clima e Mineração do BMA Advogados. Mestre em Direito Civil pela USP e Pós-Graduada em Direito Ambiental e Gestão Estratégica da Sustentabilidade pela PUC/SP.

Uma imagem em tons escuros de uma flor azul, com pétalas delicadas e um miolo em tons de roxo, em um fundo preto.

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