Jan 19, 2026
Por que 2026 será o ano da inteligência agêntica
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O ano de 2026 marca um ponto de inflexão decisivo para o setor jurídico. Se os últimos anos foram definidos pela experimentação com a inteligência artificial generativa, o futuro próximo será definido pela sua integração operacional profunda, o que é conhecido como IA agêntica.
Afinal, você já ouviu falar sobre esse conceito?
Mais da metade das advogadas e advogados de escritórios que responderam à recente pesquisa State of Practice (2025), da Bloomberg Law, desconhecia a IA agêntica, comparado a pouco mais de 30% de seus pares em departamentos jurídicos internos.
O conceito simples: do pensador ao fazedor
Até agora, a maioria das IAs funciona como uma consultora. Você faz uma pergunta, ela dá uma resposta, escreve um texto ou resume um documento. Mas, depois que te responde, o trabalho volta para você:
Você tem que enviar o e-mail, você tem que clicar no botão, você tem que marcar a reunião.
A IA Agêntica não serve apenas para interagir, mas para realizar ações concretas de forma independente. Ela funciona como um agente autônomo e por esse motivo recebe o nome agêntica.
O que torna a IA Agêntica especial são três capacidades principais que as anteriores não tinham de forma integrada:
Raciocínio de planejamento: ela não apenas prevê a próxima palavra de um texto. Ela quebra um objetivo grande (organizar uma reunião) em passos menores (verificar agendas, reservar sala, enviar convites).
Uso de ferramentas (Tool Use): ela consegue acessar a internet, abrir o Excel, enviar e-mails, usar um software da empresa ou interagir com outros aplicativos.
Ciclo de feedback: se ela tenta reservar um voo e o site dá erro, ela tenta outra companhia aérea, em vez de apenas parar e te devolver uma mensagem de erro.
No contexto jurídico, a diferença é brutal:
IA comum: o advogado pede para a IA resumir um contrato. A IA resume. O advogado lê e envia o e-mail para o cliente.
IA agêntica: o advogado diz "revise este contrato e notifique o cliente sobre os riscos". A IA lê, identifica os riscos, abre o Outlook, escreve o e-mail formal e o deixa nos rascunhos (ou envia), anexando o relatório que ela mesma criou.
O dilema das horas faturáveis: por que os escritórios ficaram para trás na IA Agêntica
O Relatório Legal Trends 2026, da Bloomberg Law, expõe um descompasso preocupante no mercado jurídico: os escritórios de advocacia estão significativamente atrasados em relação aos seus clientes corporativos na adoção da IA agêntica — sistemas proativos capazes de agir com autonomia.
Para 2026, torna-se imperativo que os escritórios eliminem essa lacuna. Essa urgência não é apenas comercial, impulsionada pela demanda dos clientes, mas também técnica e ética, visto que essa tecnologia oferece soluções para as alucinações da IA e se alinha às crescentes obrigações de competência tecnológica da profissão
Ainda segundo o relatório da Bloomberg Law (2026), essa lacuna na adoção não é acidental; ela reflete diferenças profundas na estrutura de incentivos do mercado. Uma das principais explicações para a disparidade reside na natureza dos fluxos de trabalho.
Enquanto os departamentos jurídicos internos (in-house) focam em análise de risco e gestão operacional — tarefas onde a IA agêntica brilha —, os escritórios de advocacia permanecem atrelados ao modelo de horas faturáveis. Esse sistema cria um desincentivo perverso: aprender e implementar uma IA que acelera o trabalho significa, no curto prazo, menos horas para cobrar.
Fechando a lacuna
Para fechar essa lacuna, a inércia não é opção. O relatório recomenda a criação imediata de um Modelo de Governança de IA Agêntica, estabelecendo políticas iniciais para aprender e evoluir com a tecnologia. Paralelamente, o treinamento proativo de sócios e colaboradores é indispensável para preparar o terreno. Mais do que uma nova ferramenta, a IA agêntica tende a ser o catalisador que finalmente forçará a modernização estrutural dos escritórios, redefinindo desde modelos de cobrança até práticas de contratação.
Conforme aponta o Lexology (2025), a IA baseada em agentes assume o núcleo da operação jurídica. A previsão é que, em 2026, a tecnologia deixe de ser apenas uma geradora de rascunhos para atuar como um verdadeiro parceiro digital, gerenciando fluxos completos.
Na prática, isso significa que agentes de IA realizarão a triagem de novos casos, coleta de documentos e até suporte estratégico à decisão, conectando processos e fazendo gestão de conhecimento. O artigo ressalta que, para as equipes de Legal Ops, esse cenário exige repensar a alocação de recursos: enquanto os agentes cuidam de tarefas de menor risco, o time humano deve focar em atividades estratégicas e na criação de modelos de governança para fiscalizar a autonomia desses sistemas.
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Da experimentação à transformação estrutural
Em 2026, a discussão sobre inteligência artificial no Direito deixará de ser conceitual para se tornar inevitavelmente prática. A IA agêntica não representa apenas uma evolução tecnológica, mas uma mudança estrutural na forma como o trabalho jurídico é concebido, executado e valorizado.
Escritórios que insistirem em enxergá-la apenas como uma ameaça ao modelo tradicional de horas faturáveis correm o risco de aprofundar ainda mais a distância em relação a clientes e departamentos jurídicos já orientados por eficiência, automação e gestão de risco.
Por outro lado, aqueles que compreenderem a IA agêntica como uma aliada estratégica, capaz de assumir tarefas operacionais, reduzir erros e liberar tempo humano para decisões de alto impacto, estarão melhor posicionados para liderar o próximo ciclo do mercado jurídico. O futuro não será definido por quem usa IA, mas por quem souber governá-la, integrá-la e transformá-la em vantagem competitiva real.






