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Como o Veirano está adotando IA na prática

Advogada observa a paisagem através do vidro em escritório corporativo, luz de fim de tarde. Blog post Inspira.

O mercado jurídico brasileiro já passou da fase de curiosidade sobre IA. Escritórios de todos os portes testam ferramentas, montam comitês de inovação e repensam modelos de cobrança. 

No painel "Quanto vale o seu tempo?", da AB2Lex Lawtech Experience 2026, Adriana Rollo, sócia do Veirano Advogados, e Rafael Grimaldi, co-fundador e CEO da Inspira, mostraram como essa transição está acontecendo, na prática, dentro de um dos maiores escritórios full service do Brasil.



O momento do Veirano

Adriana Rollo foi direta ao avaliar o cenário: para o Veirano e o mercado jurídico em geral, a etapa de curiosidade ficou para trás. Segundo ela, o momento agora é de "testar e experimentar de verdade, porque a gente tem hoje opções muito boas de mercado". Com isso, a discussão sobre a transformação da prática jurídica pela IA se encerrou; o que permanece em aberto é o ritmo de adaptação de cada banca.

Ela descreveu a diferença entre escritórios pequenos e grandes com clareza. Bancas boutique adotam mais rápido: há menos burocracia, mais disposição para testar. Mas enfrentam limitações financeiras para trazer ferramentas mais robustas. Escritórios grandes têm recursos para montar estruturas completas de avaliação, mas o processo é mais lento por causa da diversidade de gerações, áreas e interesses internos.

A lógica do comitê de inovação

O Veirano formalizou uma área de inovação para centralizar a adoção. O motivo foi prático: sem coordenação, diferentes áreas do escritório testavam as mesmas ferramentas de forma paralela, às vezes negociando com os mesmos fornecedores sem saber. Criar um comitê resolveu esse problema e garantiu consistência nos critérios de avaliação.

O processo funciona assim: quem participa de um teste tem um número mínimo de horas de uso obrigatório antes de dar o feedback ao comitê. O retorno esperado não é só qualitativo. O advogado precisa mostrar quanto tempo economizou, em quais etapas a ferramenta foi usada e o que poderia melhorar. Depois disso, o comitê consolida as percepções e faz a avaliação comercial.

Quando uma ferramenta é aprovada, o compromisso é real: quem não usa depois da validação é substituído no acesso. 

"Quando a gente valida uma ferramenta e traz para dentro do escritório, já tem certeza absoluta de que ela é eficiente", explicou Adriana. Não há espaço para adoção decorativa.

Esse modelo tem um ponto importante: depende do apoio da liderança. Sócios e sócias responsáveis pelas áreas são corresponsáveis pelo engajamento do time. Sem esse envolvimento, qualquer iniciativa de inovação fica solta.

Advogado apresenta análise para a equipe jurídica durante reunião de trabalho. Blog post Inspira.

A pressão que vem de fora

Adriana trouxe um dado que deveria estar no radar de todo escritório: adotar IA virou exigência externa. Os clientes estão cobrando.

O primeiro sinal veio pela pesquisa de jurisprudência. Durante anos, o tempo gasto em logins, abas abertas e consolidação manual de decisões era repassado ao cliente como custo operacional. Isso não é mais aceito. "O nosso cliente tem ciência de que a gente tem ferramentas que otimizam o trabalho, e ele não vai mais aceitar pagar por um esforço operacional hercúleo", disse ela.

O segundo sinal veio com os clientes mais sofisticados, que chegam às reuniões com contratos já revisados por IA e pedem apenas a validação jurídica. A analogia usada por Adriana foi precisa: "é que nem hoje a gente chega no médico já com o diagnóstico". O advogado ainda é insubstituível pelo julgamento técnico, pela responsabilidade e pelo argumento. Mas a fase de montagem, de pesquisa base e de primeira revisão está sendo feita em outro lugar antes de chegar ao escritório.

Isso muda o escopo do trabalho. E, por consequência, o que o cliente aceita pagar.

Advogada concentrada lê documento impresso à luz do sol em ambiente de trabalho. Blog post Inspira.

Da pesquisa jurisprudencial à revisão de contratos

Dois casos práticos do Veirano ilustraram bem onde a IA já está funcionando e onde ainda há trabalho a fazer.

O primeiro: uma startup com alto volume de contratos de fornecedores e clientes propôs ao Veirano que faria a revisão inicial pela IA e pagaria apenas pela validação jurídica. Adriana rejeitou o modelo porque ele não permitia acesso ao contrato antes da validação. A solução foi criar um hub interno no escritório, com IA própria do Veirano, onde ela mesma faz a leitura transversal com suporte tecnológico. O resultado foi viável para contratos mais simples e recorrentes, sem alto risco. Para o escritório, ainda é um modelo que exige esforço operacional em volume. Mas é a direção.

O segundo caso foi sobre precificação. Um cliente da área de tecnologia sugeriu migrar para um modelo de tokens, em que cada demanda jurídica geraria uma previsão de custo antes do trabalho começar. A ideia ainda não tem implementação clara no mercado jurídico, mas a pressão existe: clientes querem previsibilidade, e o modelo hora-bilhável com fatura surpresa no final está perdendo espaço. "Talvez a gente vá para um lugar de assinatura de serviços jurídicos", disse Adriana, deixando claro que o modelo ainda está por ser construído.

O que ainda não tem solução

O painel incluiu uma pergunta que raramente aparece em eventos de tecnologia: onde as ferramentas disponíveis ainda não resolvem o problema?

Adriana apontou dois gargalos. O primeiro é o billing. O processo de revisar faturas, conciliar time sheet com estimativas e apresentar um valor que faça sentido para o cliente ainda consome muitas horas e gera atrito. Uma ferramenta que automatizasse essa revisão, cruzando as conversas e propostas do período com a fatura gerada, economizaria tempo e reduziria conflitos.

O segundo gargalo é a gestão do histórico do cliente entre áreas. Quando um cliente atendido pela área de propriedade intelectual chega à trabalhista, toda a história precisa ser recontada. Pastas compartilhadas ficam desatualizadas. Reuniões de alinhamento consomem tempo e às vezes são feitas de forma incompleta. A aposta de Adriana para esse problema é um agente de IA especializado por cliente e por área, que centralize o histórico e permita transições sem perda de contexto.

"No momento em que a gente tiver isso pronto, pelo menos para mim, vai adiantar muito a minha vida", disse ela.

O que a Inspira está construindo

O Veirano não é só um cliente da Inspira: foi parceiro na construção do produto desde 2022. Essa relação de co-construção moldou parte do que a Inspira lançou no último mês: o Chat, o Agente e o Acervo, três produtos desenvolvidos a partir de demandas reais de escritórios como o Veirano.

A Inspira já cobre o ponto de partida da conversa do painel: pesquisa de jurisprudência com rastreabilidade real, sem abrir dezenas de abas ou fazer logins em múltiplos tribunais. São mais de 83 milhões de decisões indexadas de 86 Tribunais brasileiros, com atualização diária. Para escritórios que ainda dependem de pesquisa manual, o impacto é imediato.

Mas a conversa do painel mostra que o mercado está pedindo mais. Agentes que centralizam histórico de cliente, revisão de contratos com supervisão humana, modelos de precificação com mais previsibilidade. Essas são as direções que a Inspira está mapeando junto com os escritórios que usa a ferramenta.

Mãos operam notebook com a interface da plataforma Inspira aberta para iniciar uma tarefa jurídica. Blog post Inspira.

O mercado está decidindo, não esperando

O painel confirmou o que advogadas e advogados já sentem na rotina: a IA jurídica não é mais assunto de futuro. É uma exigência do presente, com casos de uso reais, métricas de eficiência documentadas e uma pressão crescente dos clientes que não vai diminuir.

O que diferencia os escritórios que estão avançando não é o tamanho. É a estrutura: comitê dedicado, critérios de avaliação claros, envolvimento da liderança e disposição para medir o impacto com honestidade.