IA amplifica repertório: o que isso muda na prática jurídica

A IA amplifica o que você já tem. Se o que você tem é raso, o resultado é volume sem substância. Isso não é crítica à tecnologia: é uma constatação sobre como ela funciona. No Direito, onde cada decisão carrega responsabilidade real, a qualidade do que entra na ferramenta determina a qualidade do que sai dela. Escolher bem antes de acionar a IA é uma competência tão importante quanto saber usá-la.
Em Cannes Lions, em junho de 2026, lideranças de marketing de empresas como Ulta Beauty, PepsiCo e DoorDash estiveram reunidas para discutir IA e marcas. O que mais ficou da conversa não foi nenhuma novidade tecnológica. Foi uma constatação simples: "a vencedora vai ser quem entende o cliente", disse Kelly Mahoney, CMO da Ulta Beauty.
Ouvi isso e pensei imediatamente no Direito. Porque a mesma lógica se aplica, com stakes maiores.

O problema não é a ferramenta
Existe uma fantasia circulando no mercado jurídico sobre o que a IA faz. Ela vai buscar a jurisprudência. Vai redigir a petição. Vai analisar o contrato. E vai fazer isso mais rápido do que qualquer pessoa conseguiria.
Tudo isso é verdade. O que essa narrativa omite é o que vem antes.
Uma busca de jurisprudência é boa na medida em que o critério de busca é bom. Uma petição gerada por IA reflete a qualidade do briefing que a orientou. Uma análise de contrato aponta o que foi pedido que ela aponte.
A ferramenta executa com velocidade e consistência o que a pessoa que a orienta sabe pedir. Quem pede pouco, recebe pouco, em escala industrial.
Assim como em ferramentas de criação, o que diferencia uma IA jurídica de verdade não é só a base de dados ou a velocidade. É a capacidade de ser instruída com precisão por alguém que entende o que está pedindo. Criar com IA não elimina o processo criativo. Ele o reorganiza, com exigências maiores na etapa do briefing, não menores.

O que Cannes disse
A fase das palestras sobre IA terminou. O que as lideranças em Cannes discutiram foi outra coisa: governança, qualidade, autoria, impacto real de negócio.
Porém, diferente da Criação, em que uma campanha com erro pode ser corrigida em horas, uma petição com argumento frágil ou uma tese construída sobre jurisprudência mal interpretada têm consequências que não se desfazem com uma nota de correção.
O que isso muda na prática? Três coisas.
Primeiro, o briefing virou competência técnica.
Quem sabe instruir a IA com precisão produz resultados melhores do que quem apenas aciona a ferramenta. Isso não é intuição: é o que acontece quando você coloca dois profissionais com repertórios diferentes na mesma ferramenta e compara os outputs. A diferença está no que cada um pede, em como descreve o problema, em quais critérios oferece para a análise.
Segundo, a curadoria do output se tornou parte do trabalho.
A IA entrega volume. O profissional decide o que serve. Quem não tem critério formado para avaliar o que recebe aceita tudo, ou rejeita tudo por insegurança. Nenhum dos dois é eficiência.
Terceiro, repertório jurídico acumulado voltou a ser vantagem competitiva.
Não porque a IA não tem acesso à informação. Ela tem mais do que qualquer profissional conseguiria ler em uma carreira. A vantagem está em saber o que fazer com ela, em reconhecer quando o output está certo, quando está incompleto, quando está tecnicamente correto mas estrategicamente errado para aquele caso.

O que norteia o trabalho
Qual é o problema que eu quero resolver? Qual é a qualidade de output que eu aceito? Quem no meu time tem repertório para orientar e avaliar o que a ferramenta produz? Como eu garanto que o que sai mantém o padrão técnico e ético que meu trabalho exige?
Essas perguntas não têm resposta na ferramenta. Têm resposta em quem a usa.


