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O futuro do Direito começa na faculdade: o que escritórios do mercado já esperam de quem está começando
17 de mar. de 2026

Imagine sentar num auditório durante a faculdade de Direito e ouvir, do CEO de um escritório com mais de 200 advogados, que a principal habilidade que ele espera de um estagiário já não é mais a capacidade de varrer Tribunais em busca de jurisprudência — mas sim o senso crítico para interpretar o que a tecnologia já trouxe pronto.
Foi exatamente esse o tom do evento que marcou o lançamento da parceria entre a Inspira e a Universidade Presbiteriana Mackenzie, realizado no campus Higienópolis, em São Paulo. O painel reuniu Giacomo Paro, CEO do Souto Correa Advogados e mackenzista, mediado por Henrique Ferreira, advogado e co-fundador da Inspira, e com participação do professor Julio Comparini, advogado, professor e coordenador de extensão do Mackenzie.
Da máquina de escrever à inteligência artificial: uma história de adaptação
Giacomo Paro abriu sua fala com uma memória afetiva que resume décadas de transformação profissional. Quando entrou na faculdade em 2001, seu avô — também advogado — ainda usava máquina de escrever no escritório do interior de São Paulo. Na época, parecia impossível que aquele modelo sobrevivesse à chegada do computador.
Mas o que aconteceu foi o oposto: o computador barateou, chegou aos pequenos escritórios e multiplicou a capacidade de produção dos advogados. Hoje, o número de profissionais em pequenas bancas é muito superior ao das grandes firmas. A tecnologia não fechou portas — abriu.
A mesma lógica, segundo ele, se aplica à inteligência artificial: "acho que vai mudar para gerar oportunidades e não para fechar portas. A gente vai prestar ainda mais serviços para ainda mais gente, porque a gente vai ter um preço ainda mais acessível."

O que os escritórios esperam da nova geração
Ao longo do painel, Giacomo foi direto sobre uma mudança de expectativa que já está acontecendo no mercado. No passado, o valor de um estagiário se media pela quantidade: quantos Tribunais conseguia cobrir, quantos andamentos processuais trazia de volta ao escritório…
Com a tecnologia facilitando o acesso à informação, o critério evoluiu para qualidade. E agora, com ferramentas de pesquisa de jurisprudência como a Inspira, a régua muda novamente: o que passa a ser exigido é o senso crítico.
"A pesquisa está pronta no Inspira. Você vai ter que olhar e colocar o teu pensamento sobre aquilo", disse Giacomo. "Mexer na ferramenta desde cedo, usá-la da forma mais eficiente possível. Sobrou tempo, não sobrou senso crítico."
No Souto Correa, esse movimento já é concreto: a universidade interna do escritório deixou de focar em temas técnicos e passou a investir em questões comportamentais — como se relacionar com clientes, construir confiança e desenvolver visão multidisciplinar. A lógica é clara: os alunos aprendem os temas técnicos na faculdade. Mas as soft skills o escritório pode ensinar.
O alerta do senso crítico: quando a IA mente — e você não percebe
Um dos momentos mais marcantes do painel veio com um exemplo prático trazido por Giacomo. Um profissional sênior o confrontou com um artigo de instrução normativa que a IA havia gerado para sustentar uma tese. O problema: aquele artigo simplesmente não existia.
O fenômeno, conhecido como alucinação dos modelos de linguagem, ocorre quando a IA não encontra resposta precisa e, em vez de dizer que não sabe, inventa uma. O risco é real — e cresce proporcionalmente ao quanto o profissional confia cegamente na ferramenta.
"Você induz a IA a dizer o que você quer e não usa seu senso crítico", alertou Giacomo. "O advogado sênior confia na pesquisa que você faz e a gente usa aqueles dados para ir desenvolvendo. Se ali em algum momento faltar senso crítico, vai dar muito errado."
Para endereçar justamente esse risco, a Inspira trabalha com uma base de dados coletada diretamente dos Tribunais — mais de 75 milhões de decisões — e toda resposta gerada vem acompanhada da referência original de onde foi extraída. Isso reduz drasticamente o risco de alucinações e devolve ao advogado o controle sobre a informação.
Leia mais – Alucinações de IA no Direito: riscos reais, impactos jurídicos e como evitá-los

O papel da universidade: formar quem pensa, não quem memoriza
Julio Comparini e a professora Thamara Duarte Cunha Medeiros, da disciplina de Ciência, Tecnologia e Sociedade, trouxeram ao debate a perspectiva acadêmica. Para ambos, a parceria com a Inspira não é apenas tecnológica — é pedagógica.
A professora Thamara foi enfática: "a geração de hoje está cansada, exausta do excesso de estímulo informacional. O papel da universidade é formar um profissional que pensa criticamente, que sabe selecionar bem a informação, porque do contrário a gente naufraga nela."
Julio Comparini complementou: “ferramentas como a Inspira abrem espaço para aquilo que só o ser humano pode fazer. Antigamente, você se desgastava tanto para chegar no apanhado que na hora que precisava pensar, já estava sem energia para o que seria a essência da sua atividade. A tecnologia, nesse sentido, não substitui o advogado — libera o melhor dele.”

Três conselhos para quem está começando
Ao ser provocado a dar conselhos para estudantes do primeiro e segundo semestre, Giacomo foi objetivo. Três pontos se destacaram:
1. Seja curioso. O tempo livre que a tecnologia devolve não é tempo ocioso. Use-o para se aprofundar, explorar, questionar. A curiosidade é a principal competência do profissional do futuro.
2. Se adapte sempre. As ferramentas mudam, os escritórios mudam, o mercado muda. Quem fica preso a um jeito de fazer as coisas fica para trás. Adaptabilidade não é opcional, é sobrevivência.
3. Segure a ansiedade. "Somos talvez a geração mais ansiosa que já passou nesse planeta", disse Giacomo. Com tanta informação e tantas novidades, respirar fundo e pensar em longo prazo é, paradoxalmente, uma vantagem competitiva.
A revolução no campus Higienópolis está apenas começando
Como disse o diretor Felipe ao encerrar sua participação: você não vai perder seu emprego para a IA — vai perder para quem sabe usá-la melhor que você. E o melhor momento para aprender é agora.



