IA substitui o advogado? O que o Goldman Sachs diz

Não, a IA não substitui o advogado. O estudo do Goldman Sachs sobre o impacto da IA no mercado de trabalho mostra que cerca de dois terços das profissões nos EUA podem ter parte das suas tarefas automatizadas, mas só 7% dos trabalhadores tendem a ser efetivamente substituídos. Para profissões intelectuais como a advocacia, o cenário mais provável é redistribuição: a IA assume o trabalho repetitivo e o profissional avança para tarefas de maior valor.
O que o estudo do Goldman Sachs realmente conclui
A advocacia aparece entre as profissões com maior parcela de tarefas automatizáveis, ao lado de áreas administrativas, financeiras e de engenharia. O Goldman estima que 44% das atividades jurídicas têm potencial de automação por IA generativa. É um número alto, mas precisa ser lido pelo o que ele significa: não que 44% dos advogados vão desaparecer, mas que 44% do tempo que um advogado gasta hoje pode ser absorvido por IA.
A diferença entre substituir profissionais e substituir tarefas
Substituir um profissional é encerrar a função. Substituir uma tarefa é liberar tempo dentro da função. Essa diferença muda tudo na leitura do estudo.
Pense numa advogada tributarista de um escritório médio. O dia dela tem, hoje, pesquisa de jurisprudência em três fontes diferentes, leitura de acórdãos longos para extrair teses, redação de pareceres, revisão de minutas feitas por estagiários, reuniões com clientes, definição de estratégia processual, sustentação oral. Quantas dessas atividades exigem julgamento jurídico de fato? E quantas são, na prática, processamento de informação que poderia ser feito mais rápido?
A pesquisa do Goldman aponta para o segundo grupo. O estudo do Boston Consulting Group e da Harvard Business School, publicado em 2023, mostrou que tarefas operacionais ganham até 40% de qualidade e 25% de velocidade com IA, enquanto tarefas que exigem julgamento contextual podem até piorar se a IA for usada sem critério. A conclusão é simples: a IA é boa onde o trabalho é estruturado, e ruim onde o trabalho é interpretativo.

Na advocacia, isso desenha um mapa claro. Pesquisa de jurisprudência, sumarização de acórdãos, triagem de documentos, redação de peças padronizadas, comparação de cláusulas contratuais: tudo isso é trabalho estruturado. Tese inédita, estratégia processual, leitura de risco, negociação com cliente, sustentação: trabalho interpretativo.
Como a redistribuição já está acontecendo na advocacia brasileira
O movimento que o Goldman descreve em termos macroeconômicos já tem nome concreto no Brasil. Escritórios que adotaram IA jurídica nos últimos dois anos não reduziram quadro. Reduziram tempo operacional.
A XP Investimentos é o exemplo mais documentado: o time jurídico relatou redução de 90% no tempo gasto em atividades operacionais depois de adotar uma solução personalizada da Inspira. O que aconteceu foi que o jurídico passou a entregar mais sem aumentar headcount, e o tempo liberado migrou para atividades de maior valor estratégico para o negócio.
Essa transição não é automática. Exige método, decisão de quem lidera e ferramenta confiável. Sem isso, o que se vê é uso esporádico, com pouco impacto operacional.

O risco real não é a substituição, é a polarização
A leitura mais cuidadosa do estudo do Goldman aponta para um efeito menos discutido: a polarização da profissão. Não é que metade dos advogados perderá o emprego. É que a distância entre quem usa IA bem e quem não usa vai crescer.
Quem domina a ferramenta entrega mais em menos tempo, ganha capacidade de atender mais clientes e libera energia mental para problemas complexos. Quem continua processando informação manualmente compete em desvantagem direta. Em escritórios, isso aparece na produtividade por advogado. Em departamentos jurídicos corporativos, aparece no custo por demanda atendida.

Por que IA jurídica e IA genérica produzem resultados diferentes
A maior parte dos riscos de uso de IA na advocacia vem de aplicar IA genérica a um trabalho que exige precisão jurídica.
IA genérica não tem acesso à base jurisprudencial atualizada dos Tribunais brasileiros. Pode inventar julgados, citar artigos inexistentes e gerar respostas que parecem corretas mas não passam por revisão técnica. O risco profissional disso é alto, especialmente em peças apresentadas em juízo.
A Inspira opera com mais de 83 milhões de decisões coletadas de 86 Tribunais brasileiros, com atualização diária de 5 a 10 mil novas decisões. A IA jurídica que processa esse acervo responde sobre o que existe, não sobre o que poderia existir. Essa é a diferença prática entre uma ferramenta de produtividade jurídica e um chatbot generalista que casualmente fala sobre Direito.
Para o profissional que quer transformar redistribuição em ganho real, a escolha da ferramenta importa tanto quanto a decisão de adotar IA.


