22 de jan. de 2026
Repensando o trabalho jurídico na era da inteligência artificial
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Nos últimos anos, o setor jurídico viveu uma relação intensa — e por vezes conflituosa — com a inteligência artificial. Entre expectativas infladas, experimentações rápidas e uma inevitável curva de aprendizado, chegamos a um ponto de maturidade que muda completamente a conversa. Já não estamos mais discutindo se a IA fará parte do trabalho jurídico, mas como ela se integrará de forma responsável, eficiente e, sobretudo, humana.
Os dados reforçam essa virada. Segundo o relatório Legal Tech Trends 2026 da Netdocuments, em apenas um ano, a adoção de IA em escritórios de advocacia saltou de 37%, em 2024, para cerca de 80% em 2025. Esse crescimento acelerado não representa apenas entusiasmo tecnológico, mas um reconhecimento coletivo: o modelo tradicional de trabalho jurídico não escala diante da complexidade regulatória, do volume de dados e da pressão por decisões cada vez mais rápidas e precisas.
Na Inspira, acompanhamos esse movimento de forma muito próxima. Atuando na interseção entre Direito, produto e tecnologia, entendemos que o verdadeiro valor da inovação não está no brilho da novidade, mas na sua capacidade de reduzir atritos, aumentar a clareza e devolver tempo e energia às pessoas. É nesse contexto que 2026 se apresenta como um marco: o ano em que a inteligência artificial deixa passa a ser como infraestrutura do trabalho jurídico.
Essa mudança de papel não acontece de forma abstrata. Ela se concretiza em escolhas tecnológicas, novos fluxos de trabalho e expectativas mais maduras sobre o uso da IA no dia a dia jurídico. Com base no relatório da Netdocuments, compartilho abaixo quatro movimentos de inteligência artificial que já estão redesenhando, de maneira prática, a rotina jurídica.
Leia mais – O futuro do Direito: compreender dados será tão importante quanto conhecer a lei
A inteligência artificial deixará de esperar comandos e passará a antecipar necessidades
Durante muito tempo, interagimos com a tecnologia de forma reativa: perguntamos, clicamos, solicitamos. Esse modelo começa a se esgotar no ambiente jurídico, onde o custo da busca, da interrupção e da fragmentação cognitiva é alto demais.
Em 2026, veremos a consolidação de um novo paradigma: a IA proativa, capaz de compreender contexto, histórico e intenção. Em vez de aguardar comandos explícitos, ela atua em segundo plano — como uma inteligência ambiente — organizando informações, sugerindo caminhos e antecipando necessidades.
Esse avanço é impulsionado por dois conceitos complementares:
IA ambiente, que acompanha o fluxo de trabalho de forma contínua e contextual;
IA agêntica, capaz de executar ações de forma autônoma, dentro de limites claros e auditáveis.
Na prática, isso significa que o profissional jurídico deixa de gastar energia procurando e passa a se concentrar em decidir. O esforço operacional dá lugar ao insight estratégico. Não por acaso, o relatório do Legal Tech Trends (2026) citado acima, mostra que 88% dos profissionais preferem assistentes de IA desenhados especificamente para sua área de atuação — e não soluções genéricas.
Essa mudança não reduz o papel da advogada e do advogado. Pelo contrário: ela amplia o espaço para julgamento, criatividade e aconselhamento de alto valor, que continuam sendo — e sempre serão — essencialmente humanos.
A busca por documentos evoluirá para uma conversa inteligente
Quem atua no Direito sabe: encontrar a informação certa, no momento certo, ainda é um dos maiores gargalos da produtividade jurídica. Sistemas baseados exclusivamente em palavras-chave exigem tentativa e erro, memória perfeita e uma boa dose de sorte.
Em 2026, essa lógica começa a ficar obsoleta. A busca semântica, baseada em linguagem natural, passa a ocupar o centro da experiência. Em vez de pensar “qual palavra foi usada nesse documento?”, o profissional passa a perguntar “o que eu preciso saber agora?”.
Essa evolução representa uma mudança profunda: a busca deixa de ser um mecanismo de recuperação e passa a ser um processo de raciocínio assistido. A IA compreende intenção, contexto e relações entre informações, funcionando como uma conversa com um colega experiente que conhece o histórico da organização.
O impacto vai além da economia de tempo. Decisões se tornam mais rápidas, mais seguras e melhor fundamentadas. Em um ambiente jurídico cada vez mais pressionado por prazos e riscos, a capacidade de acessar conhecimento com precisão deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade estrutural.
Leia mais – Como pesquisar jurisprudência de forma mais inteligente e ágil em 2026
A organização do conhecimento jurídico se tornará automática
Por décadas, a gestão do conhecimento jurídico dependeu de um elo frágil: o preenchimento manual de metadados. Esperávamos que profissionais altamente qualificados — e naturalmente sobrecarregados — classificassem documentos de forma consistente, precisa e padronizada. O resultado foi previsível: dados incompletos, inconsistentes e pouco confiáveis.
Em 2026, esse cenário começa a mudar com a consolidação do AI profiling — ou perfilamento por inteligência artificial. Essa tecnologia permite que os sistemas leiam, classifiquem e conectem documentos automaticamente, extraindo informações como partes envolvidas, cláusulas, datas, temas sensíveis e níveis de confidencialidade, sem intervenção humana.
Esse avanço é silencioso, mas estrutural. Ele cria a base para que todas as outras aplicações de IA funcionem de forma mais precisa. Assistentes inteligentes, automações avançadas e buscas semânticas só são realmente eficazes quando operam sobre dados bem estruturados.
Os números evidenciam esse impacto. Pesquisas da Cornell University (2025) indicam que a taxa média de recuperação de informações salta de 17,65% com metadados básicos para 62,87% quando esses metadados são gerados por IA. Mais do que eficiência, isso representa confiança no conhecimento institucional.
Ao automatizar a organização do conhecimento, devolvemos tempo aos profissionais e criamos um ativo estratégico vivo: um gráfico de conhecimento em constante evolução, que aprende com a própria operação da organização.
A automação jurídica aprenderá a pensar, não apenas a seguir regras
A automação sempre foi uma promessa sedutora no Direito — e frequentemente frustrante. Sistemas baseados em regras rígidas funcionam bem em cenários previsíveis, mas falham diante de exceções, ambiguidades e mudanças regulatórias.
Em 2026, a automação jurídica dá um salto qualitativo. Em vez de apenas executar regras fixas, ela passa a interpretar padrões, entender intenção e se adaptar ao contexto. É a transição da automação mecânica para a automação inteligente.
Esse novo modelo permite lidar com tarefas mais complexas, como:
Configuração dinâmica de casos
Geração contextualizada de relatórios
Verificações contínuas de conformidade
Orquestração de fluxos de trabalho entre áreas
O impacto no papel do advogado é significativo. De supervisor de processos, ele passa a atuar como orquestrador de resultados, focado em estratégia, risco e tomada de decisão. Não por acaso, equipes jurídicas internas já apontam o aumento da eficiência (35%) e a automação de processos (26%) como seus principais objetivos ao adotar IA generativa.
Tecnologia como meio, pessoas como fim
Quando olhamos para 2026, fica claro que a inteligência artificial no Direito não se resume a fazer mais em menos tempo. O verdadeiro avanço está em algo mais profundo: redefinir a relação entre pessoas, tecnologia e trabalho.
Ao eliminar atritos desnecessários, tarefas repetitivas e sobrecarga cognitiva, a tecnologia abre espaço para um trabalho jurídico mais sustentável, estratégico e humano. Mas esse futuro não acontece por inércia. Ele exige escolhas conscientes, governança clara e uma gestão de mudanças que coloque as pessoas no centro.
Na Inspira, acreditamos que liderar essa transformação não significa adotar todas as novidades, mas construir fundamentos sólidos: dados bem organizados, processos claros e tecnologia que sirva ao propósito — e não o contrário.
À medida que a IA assume o que é repetitivo e operacional, a pergunta que se impõe a todos nós é simples e poderosa: em que tipo de trabalho de maior valor podemos, finalmente, concentrar nossa inteligência humana?




