O que o Demarest espera de uma IA jurídica

Precisão técnica e segurança da informação são os requisitos mínimos que um escritório como o Demarest exige de qualquer ferramenta de IA jurídica.
Em um painel realizado na sede do escritório, Isabela Ferrari, advogada tributarista, e Victor Novis, advogado especializado em comércio internacional e aduaneiro, compartilharam o que a tecnologia já entrega, onde ainda falha e quais avanços concretos fariam diferença real na rotina de quem atua no mais alto nível do Direito brasileiro.
O Demarest é um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, presente em práticas que exigem máxima precisão técnica e confidencialidade rigorosa.

Como a IA jurídica transformou a rotina de trabalho no Demarest
O que a IA mudou de forma concreta no dia a dia de vocês?
Isabela Ferrari: Hoje é impossível pensar em rotina de trabalho sem o uso de inteligência artificial. O Demarest tem diretrizes claras sobre quais ferramentas podem ser usadas, com foco total em segurança da informação e sigilo dos clientes. Dentro desses limites, a IA ajuda muito em tarefas mecânicas: organizar ideias, estruturar e-mails, catalogar assuntos novos. Para o trabalho jurídico mais denso, ela funciona como uma assistente na estruturação de peças processuais.
Victor Novis: A inteligência artificial mudou absolutamente tudo. Como a escrita e a linguagem são as ferramentas de trabalho do advogado, erros de português ou concordância podem prejudicar a imagem junto a clientes exigentes. Por isso, uso a inteligência artificial para revisar petições e textos, garantindo que o material final esteja impecável. Na pesquisa jurisprudencial, a Inspira tornou-se essencial: meu trabalho envolve decisões estaduais e municipais, que são vastas e dispersas. A ferramenta mapeia e categoriza essas decisões em diferentes níveis do Judiciário, algo que seria impossível fazer manualmente.
Novas habilidades dos profissionais
Trabalhar com IA desenvolveu competências que vocês não esperavam?
Victor Novis: A relação com a inteligência artificial demanda um olhar cético. Ela deve ser usada como ferramenta de suporte e revisão, não de aprendizado. Profissionais experientes conseguem extrair valor dessa tecnologia, pois validam o conteúdo gerado com facilidade. Para quem está no início da carreira, no entanto, o perigo é maior: sem bagagem técnica, é difícil notar erros ou informações inventadas. Soma-se a isso a tendência que essas ferramentas têm de tentar agradar o usuário. Ao serem confrontadas, elas mudam de posição prontamente, o que compromete a credibilidade. O ideal é que a inteligência artificial admitisse quando um assunto é inconclusivo ou controverso, em vez de insistir em respostas que podem estar erradas.
Isabela Ferrari: Concordo inteiramente com o Victor. O conceito central é criticidade. Não somos treinados pela IA, somos nós que precisamos treiná-la para que ela entregue o que precisamos. O advogado precisa de uma postura ativa e de questionamento constante sobre as respostas geradas, sem nunca deixar de recorrer às fontes formais e ao estudo aprofundado.

O que ainda falta na IA jurídica
Quais são as principais lacunas que vocês ainda sentem no uso da tecnologia?
Isabela Ferrari: O maior gargalo hoje é a fragmentação. Para realizar tarefas diferentes, precisamos pular de uma ferramenta para outra: uma para planilhas, outra para pesquisa jurídica, outra para revisão de texto. O avanço real seria ter um ecossistema integrado que concatenasse todas essas interfaces em um só lugar.

O que fica do painel com Isabela e Victor é um retrato de como escritórios de excelência constroem a relação com a IA: com critérios claros, senso crítico aguçado e pedidos concretos que revelam usuários que já passaram da fase de experimentação.
A tecnologia útil é aquela que acompanha quem já sabe o que precisa.

