governança e compliance
futuro do direito
Governança de IA na advocacia: por que um advogado lidera

•
Quem deveria decidir o que uma IA pode ou não fazer num escritório de advocacia?

Muitos escritórios de advocacia já perceberam que o verdadeiro desafio não está em contratar sistemas de IA, mas em definir quem realmente tem a palavra final sobre o uso adequado dessa tecnologia no dia a dia.
Em agosto, a BARBRI Professional Education entrevistou líderes de inovação, aprendizado e gestão do conhecimento em nove firmas americanas e encontrou quase o mesmo retrato em todas: adoção real, governança nenhuma. Uma firma, o Akerman, resolveu isso escalando um advogado, não um engenheiro, para liderar a área.
O cargo que o Akerman criou
O relatório da BARBRI, Driving Change and ROI: Uniting Three Teams to Lead Law Firms into the Future, e o dado que mais chamou atenção não estava nas páginas do relatório. Estava numa decisão paralela do Akerman: criar o cargo de Director of AI Governance and Data Protection e colocar Michael Adler, advogado, para ocupá-lo.
A razão é simples: o foco do mercado mudou da simples adoção para a governança da IA, ainda mais com a chegada de ferramentas cada vez mais autônomas. Definir o que é seguro no uso jurídico exige mais do que conhecimento técnico de TI. Exige entender na prática o impacto de uma tese incorreta, o risco do vazamento de informações confidenciais ou o perigo de incluir uma alucinação em uma petição.

Adoção real, visibilidade quase nula
Dez líderes, nove firmas, três frentes: inovação, aprendizado e desenvolvimento, gestão do conhecimento. O diagnóstico central do relatório é que quase todas as firmas entrevistadas fizeram progresso real em colocar ferramentas de IA nas mãos dos advogados. Nenhuma construiu o framework de competência que a base de associates precisa para usar essas ferramentas com critério.
Saber quem ativou a licença é fácil, mas ter clareza sobre quem realmente usa a tecnologia no trabalho diário é outra história. Ativar o acesso passa longe de significar adoção de fato. Olhar para um painel com números de licenças ativas não revela quem aprendeu a encaixar a IA na sua rotina e quem apenas deu o clique inicial só para não ficar para trás.
O contexto de investimento reforça a urgência. As firmas gastaram 9,7% a mais em tecnologia em 2025, com o investimento em gestão do conhecimento 37,2% maior do que em 2021. Ainda assim, 90% da receita continua vindo do modelo de hora trabalhada, o mesmo modelo que a IA está comprimindo por dentro.
Leia mais: Por que controlar horas não garante eficiência jurídica
A tensão que ninguém tira do relógio
Aqui está o ponto que a análise do LawFuel coloca em termos mais duros do que o relatório original. As firmas estão implantando software que faz em minutos o que antes ocupava horas faturáveis. A estrutura de cobrança, enquanto isso, permanece ancorada no relógio.
As receitas cresceram bem em 2025, mas os pagamentos já começaram a desacelerar e o ciclo de recebimento caiu mais de três pontos percentuais. Não chega a ser uma crise, mas é um alerta claro: para o sócio que ainda enxerga a IA apenas como um atalho de produtividade, essa conta deixa de fechar.

Curadoria jurídica não é trabalho de engenheiro
Existe uma leitura óbvia do caso Akerman: mais um cargo, mais uma sigla, mais burocracia num setor que já tem burocracia demais. Discordamos dessa leitura.
O ponto real é outro: quem decide o que uma IA pode ou não pode responder num contexto jurídico precisa entender a matéria que está sendo automatizada, não só o modelo que está por trás dela. É por isso que construímos a Inspira do jeito que construímos, com advogadas e advogados definindo o que entra e o que não entra nas fontes que a ferramenta usa para responder.
Governança de IA no direito não é um detalhe técnico ajustado no final. Trata-se de curadoria — e curadoria exige o olhar de quem entende a prática jurídica.
O jurídico corporativo brasileiro já sente esse mesmo aperto, ainda que sem o mesmo nome no cargo. Já mostramos como o jurídico corporativo adotou a IA e agora enfrenta a parte difícil: decidir quem responde quando o modelo erra, quem aprova o uso de um agente autônomo, quem audita o histórico de decisões assistidas por IA. O Akerman deu nome e cargo a essa função. A maioria das firmas brasileiras ainda trata isso como responsabilidade difusa de todo mundo, o que na prática costuma significar responsabilidade de ninguém.

Perguntas frequentes
O que é governança de IA em um escritório de advocacia?
É o conjunto de regras, papéis e processos que definem quem pode usar IA, para quais tarefas, com qual nível de supervisão e com qual responsabilidade em caso de erro. Não se resume a comprar uma licença de ferramenta: envolve decidir quem audita o uso, quem responde por uma alucinação e quem atualiza as regras conforme a tecnologia muda.
Por que colocar um advogado, e não um engenheiro, para liderar a governança de IA?
Porque o risco central da IA jurídica não é técnico, é interpretativo. Um engenheiro entende de infraestrutura e de modelo. Um advogado entende do que acontece quando uma tese errada chega ao cliente ou a um Tribunal. O Akerman apostou que esse segundo tipo de risco pesa mais na balança.
Meu escritório já precisa de uma função formal de governança de IA?
Se advogadas e advogados já usam IA no dia a dia sem um critério comum sobre o que pode ou não ser automatizado, a resposta provavelmente é sim. O sinal mais claro é a mesma lacuna que a BARBRI encontrou: saber quantas licenças estão ativas, mas não saber como (ou se) elas estão sendo usadas.
A IA jurídica realmente reduz as horas faturáveis do escritório?
Reduz o tempo gasto em tarefas operacionais, como triagem de documentos e pesquisa de jurisprudência. O efeito sobre a receita depende de como o escritório precifica esse ganho: quem continua cobrando pela hora sente a compressão, quem já migrou parte da cobrança para valor entregue transforma a mesma eficiência em margem.
Como a Inspira ajuda um escritório a manter governança sobre o uso da IA?
A Inspira foi construída por advogadas e advogados, o que significa que a curadoria das fontes e os limites do que a ferramenta responde já nascem com critério jurídico, não só técnico. Isso não substitui uma política interna de governança, mas reduz o espaço para o tipo de erro que motivou o Akerman a criar o cargo.


